Cabras, vacas e putas

Sara Martínez 25/09/2020

Por usar saia curta ou decote, por falar alto, por se destacar no trabalho, por dizer algo irritante, por exprimir a sua opinião ou por se calar, há muitas razões para ser uma 'puta'. De actrizes, deputadas, árbitras, jornalistas, até a chefe que deu bronca, a vizinha que não deu bola, a rapariga que traiu o namorado. Todas elas chamadas de cabras, vacas e putas, termos que podem obviamente ser usados livremente, de forma solta e intercambiável - desde que o alvo seja feminino (ou exiba abertamente 'características femininas'). Levante a mão se nunca foi chamada de 'puta’, ‘cabra’, ‘vaca’ ou qualquer coisa do género; se nunca ouviu nenhuma destas palavras murmurada por um bêbado rejeitado; por um rufia do trabalho ou da escola - ou mesmo gritada do outro lado da rua por um completo estranho. Mas que atire a primeira pedra aquela que nunca proferiu pelo menos um destes insultos contra uma professora exigente demais, contra a rapariga que lhe “roubou” o namorado quando tinha 17 anos, contra aquela colega de casa que fazia festas noturnas na véspera do exame. Há alguns anos, um estudo realizado no Reino Unido concluiu que as mulheres são responsáveis por 50% dos tweets com as palavras “slut” e “whore” (qualquer coisa como ‘cabra’ e ‘puta’) dirigidas a outras mulheres, com um tom agressivo. Preocupante, não acha?

Não é novidade insultar aludindo à profissão mais antiga do mundo; no entanto, nos últimos anos este tipo de linguagem parece mais presente do que nunca graças ao imparável avanço das redes sociais e à impunidade que estas proporcionam aos seus utilizadores. “Depravada”, “vaca”, “agarrada”, “lésbica”, “badalhoca”… “Esta é uma amostra muito pequena das coisas que me chamam nas redes sociais”, denunciava a eurodeputada Marisa Matias em 2017 no seu perfil do Facebook, após ser questionada sobre o sexismo na política. Mas ela não é de modo algum a única. No mesmo ano, o Jornal Económico publicou um artigo que continha alguns exemplos de tais comentários dirigidos a várias figuras femininas da cena política portuguesa; vamos apresentar aqui algumas dessas ‘pérolas’.

Sobre a ex-deputada Teresa Leal Coelho, por exemplo, um usuário questiona se ela “é aquela feiona que a parece às vezes na tv?”, enquanto um outro comenta que “como não tem mais ninguém, convidaram a mulher da limpeza. Já a deputada do PS Isabel Moreira (“Grande de’puta’da”, como é alcunhada por um dos seus “fãs”) é convidada ir “coser meias” e “fazer topless”. Também não se livra a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua, que é chamada de “badalhoca mental”, “Grande Put...” e “cadela raivosa”, entre outras sutilezas semelhantes. Um dos casos mais recentes e conhecidos foi o da congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez, a quem um dos seus colegas republicanos, Ted Yoho, de 65 anos, chamou “fucking bitch”. Esta triste realidade não se limita apenas à política.

Por palavras da jornalista Paula Cosme Pinto num artigo do Expresso, “Da política às estrelas do cinema, da literatura à música, da ciência ao mundo empresarial, a agressão verbal sexista dirigida às mulheres é transversal, e surge amiúde em forma de ridicularização e de desvalorização das suas capacidades com base no seu género, num recurso recorrente a questões sexuais, domésticas, reprodutivas, e, é claro, de aparência física. Um espelho claro daqueles que são ainda tidos como supostos pilares da existência feminina”. A linguagem não é sexista, racista ou homofóbica, é apenas uma ferramenta. Ninguém se surpreende que as empresas gastem milhares de milhões em campanhas de marketing, imagem de marca ou o slogan perfeito, que pesquisem e se preocupem com tudo o que é dito sobre elas. Porque linguagem é poder, uma forma de exaltar ou humilhar, de possuir ou libertar, de exaltar ou denegrir.

Não está na altura de todos lhe darmos o respeito que merece?

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