Pelas "mulheres de alguém", as que "estariam melhor na cozinha" e as que "chegaram lá por fazer broches”

“Todo o trabalho intelectual e artístico, incluindo as piadas, ironias e sátiras, tem mais sucesso na mente da multidão, quando a multidão sabe que, algures por detrás da grande obra, ou do grande embuste, se encontra uma pila e um par de tomates”. Tão devastadora quanto precisa, a escritora Siri Hustvedt põe esta frase na boca, ou melhor, nas palavras da protagonista de um dos seus livros mais brilhantes e complexos, "O Mundo Ardente".

Que qualquer comentário, piada ou frase tenha mais reconhecimento vindo de um homem do que de uma mulher, é machismo? É machismo que, num processo de selecção, o entrevistador trate o entrevistado de forma diferente, dependendo de ser homem, mulher ou mulher atraente (de acordo com os seus critérios, claro)? É machismo questionar o valor de uma política, de uma artista ou de qualquer outra profissional por causa das suas características físicas ou por causa do seu parceiro? Hordas de “meninas”, “minhas queridas”, “lindas” e “rapariguinhas” amaldiçoam todos os dias os “campeões”, “craques” e “heróis” que povoam os escritórios. Chegou o momento daquelas que "chegaram lá por fazer broches” ou por "aquele par de mamas”, das “mulheres de alguém” e das que “estariam melhor na cozinha”.

Em 8 de Março de 1857 (embora haja alguma controvérsia com as datas), centenas de mulheres marcharam pelas ruas da cidade de Nova Iorque para exigir melhores salários. A manifestação terminou com 120 trabalhadoras de uma fábrica têxtil mortas em uma demonstração de masculinidade e brutalidade policial. As trabalhadoras que tiveram a sorte de sobreviver fundaram o primeiro sindicato de mulheres. Já no século XX, os proprietários da fábrica Triangle Shirtwaist selaram as portas das escadas e das saídas por medo de que as empregadas roubassem. Em 25 de Março de 1911 a fábrica pegou fogo, 146 trabalhadoras foram queimadas até a morte, intoxicadas ou presas sob os escombros, algumas cometeram suicídio, pois não encontraram saída. Em 2020, a chefe da administração e da contabilidade de uma escola estatal de uma pequena cidade provincial sai para ver se os trabalhadores que ela contratou para realizar algumas reformas precisam de alguma coisa, é a senhora da limpeza?, perguntam eles. Não há ofensa nenhuma em ser senhora da limpeza, mas acontece que não era.

Vamos fazer uma pesquisa rápida no Google agora, discriminação no trabalho por género. “Veterinária de baixa despedida porque é considerado que se cuida do bebé, pode ocupar-se do gado”, “Trabalhadoras do turismo alvo de discriminação e bullying na gravidez”, “Funcionário vence processo milionário contra banco JPMorgan por discriminação contra pais na sua política de licença paternidade”, “Comércio: duplicaram as queixas de discriminação de género no trabalho”, “Portugal e a igualdade de género: bom nas leis, mau na distribuição do trabalho doméstico”. Estes são apenas alguns resultados dos milhares que aparecem.

A boa notícia é que as conversas sobre sexo estão a tornar-se cada vez mais frequentes e normais. Um grupo de amigos a beber um copo começa a falar de sexo. Elas tomam a palavra. "Nunca fui capaz de me masturbar", diz uma. "Eu faço-o todos os dias", responde a outra. Então elas falam sobre brinquedos e fantasias, sobre modos e maneiras e posturas, sobre hábitos. Nada de risos ou comentários. Eles nem pestanejam.

Se as coisas mudaram em mais de um século? Claro, mas "nenhuma mulher tem um orgasmo a limpar o chão da cozinha".